Ainda no mês de outubro daquele ano, fui levado de novo ao mesmo lugar visitado anteriormente. Me vi no centro do Salão Dourado, de frente para o Altar e encaminhei-me para lá. Permaneci alguns instantes parado diante do pequeno nicho, observando o movimento suave dos anéis de ouro, apreciando as cintilações que se davam quando eles se interpenetravam, permanecendo inteiramente intactos. Por motivos que não logrei entender, como se a idéia não partisse de mim, muito embora não tenha recebido nenhuma ordem mental, fui tentado a colocar a mão na rota dos "aros". E assim fiz. Ergui a mão e interrompi o movimento dos anéis.
Hoje ao escrever este relato, tenho a nítida impressão de que fui impulsionado a fazê-lo, talvez pelo meu invisível Guia.
Instantaneamente soou uma sirene bem alto, ecoando no Salão como se fossem mil sirenes. Assustadíssimo e achando-me irresponsável, vi-me de pronto frente a um outro túnel, tão longo que não via o fim. Nem pensei; mergulhei nele confiante como quem salta no espaço aberto à sua frente, no escuro, talvez querendo fugir do grande salão dourado que a essa altura dos acontecimentos me apavorava como pesadelo.
A fuga nesse segundo túnel foi rapidíssima, embora sabendo intimamente, que havia percorrido uma grande distância.
Um ponto de luz surgiu na imensa escuridão. Foi aumentando paulatinamente até que à minha frente tudo era azul e de intensa luz. Surpreso, percebi que metade do azul era de um mar claro, reluzindo aqui e ali pedaços de sol entrelaçados, em sua superfície viva. A outra parte era um céu azul claro, límpido, inundado de luz da manhã.
Deixei-me encantar pelo azul, pela paz, como se estivesse hipnotizado, tendo o meu olhar preso num ponto do céu. Aos poucos fui invadido por sensações muito estranhas que reduzidas à realidade, são mais ou menos o que se segue: senti que naquele ponto do espaço em que eu tinha preso o meu olhar, estavam Irmãos conhecidos. A certeza era algo interior, espiritual, que fora despertado. Achei-me invadido por uma saudade indefinível que se mesclava com ondas de tristeza, despertando um sentimento de ternura antigo, talvez milenar.
Por alguns momentos fiquei imóvel, imensamente pesado como se eu fosse de granito. Quando consegui baixar os olhos para a terra, vi em frente sobre a grama verde, grandes estátuas de pedra enfileiradas de lado, todas olhando para um só ponto no espaço.
Percebi então, estar na Ilha de Páscoa, no meio das monumentais esculturas como se fosse uma delas, ou melhor, como se estivesse dentro dela, olhando através dos seus olhos. Em seguida, fui deslocado daquela posição primitiva, ficando s sobrevoar a encosta inclinada coberta de verde, de costas para o mar, de posse duma visão panorâmica daquela parte da Ilha.
Todas as esculturas estavam de pé em fila, talvez como no princípio.
Todas essas emoções maravilhosas transformando-se em sentimento fortes são difíceis de serem descritas, acontecem em segundos, são complexas, traduzem mil coisas sem que se articule uma palavra. Talvez seja apenas uma chave.
As pessoas que se desdobram viajando no espaço sem o corpo físico, deslocam-se por dimensões desconhecidas, onde parece que tudo pode acontecer, ao mesmo tempo, de maneira incrível, mas tão real, tão distante do dia a dia e próximo da realidade espiritual.
Após os eternos segundos, em que bombardeado por tantas emoções e sentimentos diferentes do cotidiano, que só o espírito tem capacidade de assimilar e compreender, todavia muito difíceis de serem descritos, fui trazido ao local de reunião e não voltei mais ao Grande Salão subterrâneo de Mato Grosso.