Um dia, às margens da praia, sobre a areia molhada, escrevi um poema.
Quisera eu ter tido tempo para dedicar-me aos meus pobres irmãos sofredores.
Quisera eu ter despertado mais cedo para poder acolher no aconchego do consolo, meus tutelados ignorantes.
Minha missão era evangelizar, hoje sei, que o evangelizado maior fui eu. Apesar da selvageria da existência primitiva vivida, as Leis Divinas eram respeitadas instintivamente, pois aqueles irmãos, tutelados meus, viviam em comunidades, na verdadeira comunidade. O que se produzia pertencia a todos indistintamente. A caça e a pesca eram igualmente repartidas, bem como, constante o amparo fraternal nas enfermidades.
As crianças, livres como aves celestes vivenciavam sua inocente infância nos folguedos naturais, próprios da idade, sem a mínima preocupação. Pássaros livres! Só eram chamados ao concurso da aprendizagem, no momento em que atingiam uma maturidade, para compreenderem a necessidade e a importância dos ritos para eles transmitidos.
Eu, respeitado evangelizador, fui evangelizado por selvagens com os quais aprendi a respeitar a vida, a natureza, a Terra.
Sobre a areia da praia, escrevi a minha dor de ser um elo de escravidão, para os inocentes e puros irmãos.
Escrevo agora, em meu coração, o nome de cada bravo guerreiro que busca libertar as tribos da perseguição dos fantasmas revoltados e rebeldes (espíritos de índios desencarnados), que ainda hoje assombram aldeias e promovem lutas e violências.
Empenho-me, junto a vós, no socorro cristão aos irmãos indígenas, pois são para mim a maior responsabilidade. Não descansarei, enquanto houver um irmão perdido nas aflições dos umbrais terrenos, sofrendo dores que eu um dia ajudei a criar.
Meu coração fragilizado ainda em vida, quedou-se em remorso por não ter tido forças suficientes para enfrentar a voz superior que comandava as ações de catequese aqui nesta Terra Brasil.
Obrigado irmãos queridos!
Que a Paz do Divino Mestre vos preencha o vazio da alma terrestre!
José de Anchieta
GESH - 01/02/2002 - Vitória, ES - Brasil